
E então, a mulher dirigiu-se ao Profeta e perguntou:
_Mestre, o que tens pra dizer sobre os filhos?
E ele falou:
Vossos filhos não são vossos filhos,
são os filhos e as filhas
da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor,
mas não vossos pensamentos.
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas.
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles,
mas não podeis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás
e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos
são arremessados como flechas vivas.
O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito.
Vos estica com toda sua força,
para que suas flechas se projetem rápido e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro
seja vossa alegria.
Pois assim como Ele ama a flecha que voa,
ama também o arco que permanece estável.
(Gibran Kahlil Gibran - O Profeta)

E por falar em filhos, há tempos vivi uma experiência fascinante que, apesar de não ter sido com meus filhos, bem que poderia ter sido. Um dos muitos momentos preciosos da minha vida.
Eu estava levando um amigo de carona até um bairro da periferia de Belo Horizonte, até à escola onde ele trabalha como supervisor. No caminho, passando já pela avenida onde fica a escola, me surpreendi quando ele, ao ver uns adolescentes que se encaminhavam para a aula, colocou a cabeça pra fora e gritou:
_Vocês podem voltar pra casa, porque estão atrasados e não vou permitir que entrem!
Me surpreendi com o que ele disse e protestei logo:
_Não se esqueça que também está atrasado, meu amigo, e não tem moral nenhuma pra dispensar os garotos.
Ele não me deu ouvidos e continuou gritando irritado. Chegando à escola, mandou que abrissem o portão para que eu entrasse com o carro e que fechassem em seguida para que os alunos ficassem lá fora.
Eu fiquei revoltada:
_Você tem consciência do que está fazendo? São adolescentes, não vão voltar pra casa. Vão ficar na rua até o término das aulas, fazendo sabe-se lá o quê.
_Não me desmoralize diante dos alunos. Eles sabem que têm que respeitar as regras e que não podem chegar atrasados.
Eu não sosseguei. Tentei dissuadí-lo de todas as formas. Por fim, ele se rendeu aos meus apelos e mandou que abrissem o portão. Os garotos entraram, eram cerca de vinte, meninos e meninas... lindos. Foram direto para o pátio e lá ficaram conversando. Então eu disse ao meu amigo:
_Ora, não precisa deixá-los à toa no pátio. Dê a eles uma atividade qualquer. Melhor, aproveite para dar a eles uma tarefa cultural. Algo que desperte neles o prazer de ampliar suas mentes. Não tem uma sala vazia onde possam ficar?
Ele mandou que fossem pra uma sala vazia e lá ficassem até o sinal para a próxima aula. De longe reparei que estavam quietos. Estranhei o fato... adolescentes são sempre tão ruidosos! Então, esperei uns instantes e, curiosa que sou, fui até à sala dar uma espiada.
Lindos, de toquinhas de lã, calças largas e caídas, jaquetas compridas até o meio das coxas, olhinhos brilhantes e cheios de vontade de mudar o mundo. Eles me viram e eu dei um boa noite tímido.
_Você é a nova professora?
_Infelizmente não._ Eu disse surpresa com a minha resposta. Nunca tinha passado pela minha cabeça lecionar... sou exigente demais comigo pra ensinar alguma coisa.
_E se fosse professora, do que seria?
_ Quem sabe História... talvez Literatura... é, mais provável que ensinasse Literatura.
_Credo!!!_ gritaram em uníssono. _Odiamos Literatura, isso não serve pra nada!
Eu entrei, sentei numa das pontas da mesa e disse:
_Vocês não odeiam Literatura... não poderiam odiar... Vocês amam Literatura!
Era a deixa que eu precisava. Me dirigi ao quadro e procurei giz. Não tinha. Eles perceberam e uma das meninas saiu rápido para pegá-los, mesmo antes que eu pensasse em pedir. Então eu escrevi no quadro:
"Só confio nas pessoas loucas
Que falam demais e alto demais.
Que querem ser salvas
E que bocejam diante do comum.
E que ardem... ardem... ardem...
Até explodir no espaço desafiando estrelas e cometas."_Nossa! Que do caralho!!! Foi você que escreveu isto?
Eu ri muito da naturalidade deles... rsssssss...
_Não. Quem dera! Este poema foi escrito por
Jack Kerouac, um escritor norte-americano que nasceu no início do século passado e morreu ainda jovem. Foi porta-voz da sua geração, que marcou o final da década de 50 nos Estados Unidos e preparou um movimento de contracultura que aconteceu 10 anos depois. Ele escreveu numa linguagem espontânea o descontentamento de seus contemporâneos. Fazia isto de forma marcante, com romantismo, exaltando a natureza e celebrando uma vida livre.
Eles me pareceram tão interessados que propus uma atividade muito usada nas agências de publicidade, o "
Brainstorm". Expliquei a eles o significado da técnica cuja tradução é "
Tempestade Cerebral" e eles adoraram. Pedi então que fizessem uma leitura muda do texto. Em seguida, que cada um dissesse apenas uma palavra que resumisse o pensamento do autor. A regra era dizer o que quisessem e nenhuma palavra poderia ser criticada, porque por mais absurda que parecesse poderia servir de ponte para outras.
Silêncio sepulcral na sala. Adorando, dei a eles um tempo para que saboreassem o texto e, enquanto liam, dividi o quadro em três partes iguais, ao lado do poema. Perguntei qual deles queria registrar as palavras no quadro e um dos garotos se ofereceu.
À medida que as palavras foram escritas, um sorriso cada vez maior se abria no meu rosto. Todas as idéias registradas, deixei que eles mesmos se surpreendessem com o poder da Literatura neles... e eles perceberam.
O sinal para o intervalo tocou e me despedi. Um dos alunos correu e trancou a porta da sala por dentro para que eu não saísse. Isso foi delicioso!!! Fiquei que nem criança quando ganha um presente há muito desejado e pensei em retribuir... mas, como retribuir à altura??? Disse então a eles que daria um conselho:
_O tempo é por demais poderoso. Ele destrói tudo. Nada resiste a ele. Só não pode nada contra o conhecimento. A beleza, a saúde, o poder, o dinheiro, a juventude, tudo isso o tempo leva de nós. Mas, o Conhecimento não. Ele só aumenta. E por isso é mais poderoso ainda do que o tempo.
Lembrem-se sempre disso: apenas o conhecimento pode tirá-los de onde estão para elevá-los à uma vida melhor. Não só de riquezas materiais... mas, principalmente, em riqueza interior.
Naquela noite fui embora pra casa cheia de energia positiva. Eles me deram tanto, tanto, que comecei a pensar na possibilidade de ensinar para alunos carentes das periferias da cidade.