
A menina veio conversar comigo. Disse que estava em negociação. Suspirei desanimada, o nick era como muitos que tenho visto ultimamente:
"{xxxxxxxx}... Negociando".
Ela me falou de suas aspirações, das espectativas do Dominador com quem estava “negociando”. Achei que ela era uma gracinha de menina e fiquei com pena, porque pode vir a ser mais uma a engrossar a fila de submissas desiludidas. Vai "negociar", depois se entregar. Algo que é incompreensível pra mim. Então, julguei que era da minha responsabilidade alertá-la sobre algo.
Não se controla o coração, menina. Podemos controlar quase tudo em nós, menos o coração. O coração é um cavalo chucro, selvagem, indomado. Não adianta colocar rédeas, montar à força, usar esporas, muito menos dar jeitinhos. Por mais que tenham sido feito planos para amar uma pessoa, o coração, este “ser” indomado, só se entrega quando é hora.
Você pode até planejar quando encontra a pessoa com a qual sonhou caminhar e envelhecer junto. Entretanto, não adianta. Tudo tem de acontecer naturalmente, porque ele, o coração, vai empinar, relinchar alto, dar coices. Ele dirá: “Não quero! Ainda não é o momento.”
E não haverá nada e nem ninguém que conseguirá convence-lo.
Mas, um dia este cavalo selvagem estará distraído, comendo uma graminha, o rabo balançando pra cá e pra lá... E chegará alguém. Pedirá uma informação, comentará sobre o tempo, falará sobre os últimos acontecimentos políticos... um pouco sobre si mesmo... sorrirá. E ele, o coração, o cavalo chucro, neste momento relaxado e tranqüilo aceitará a proposta pra dar um passeio...
Será montado sem pretensão. Sairão os dois, delicadamente, cavalo e cavaleiro, num passeio leve, por paisagens conhecidas, agora parecendo novas, se descortinando aos quatro olhos... vento fresco balançando os pelos de ambos... suores e licores se confundindo...
O coração, este selvagem ser, nunca antes controlado, percebe que chegou sua vez. Quando der de si, nem precisará mais que lhe usem rédeas. Chegou sua hora, o momento tão temido. O amor chegou sem ser percebido, tomou conta, ocupou todos os espaços, como um posseiro.
O coração se assustará, experimentará sensações desconhecidas que o deixarão trêmulo, elas o farão pulsar descontrolado, num momento estar gelado, noutros misteriosamente aquecido...
E, por mais que se esforce, não conseguirá pensar em mais nada.
Não encontrará palavras que definam tudo que está sentindo, que descrevam com exatidão. Não haverá como resistir, nem como voltar atrás.
Vou te dizer algo aqui, menina, o meio BDSM possivelmente vai me execrar. Não tenho medo, no entanto. Cada um tem o direito de pensar e expor seus sentimentos. Eu respeito. Tento entender todas as opiniões, espero que tentem entender e respeitar a minha.
Não há a menor possibilidade de se tecer uma relação de amor onde houver antes a maldita negociação que tanto falam. Não estou te influenciando a iniciar algo sem antes conhecer a pessoa. Muito menos a se entregar levianamente a quem terá todos os direitos sobre seu corpo e sua alma. Não é isso. É preciso conhecer, sentir com segurança que espécie de pessoa está se envolvendo.
Não se deixe levar pelas palavras sedutoras de um Dominador desconhecido. Da mesma forma que não deve se deixar seduzir em qualquer outro tipo de relacionamento. Tenha muito cuidado, se preserve... mas, não me fale em negociação. Ah, sinto muito, não concordo que seja possível misturar um “negócio” com qualquer sentimento nobre... como o amor, por exemplo.
Se você, submissa, quer negociar com um Dominador e espera que desta “transação” nasça uma relação de amor... rs... te digo: não é possível, menina. Deixe as negociações para empresários. Estamos aqui tratando de pessoas.
Está receosa? Quer tudo esclarecido direitinho antes? Não confia no seu feeling? Se não sabe reconhecer quando um homem é ideal para namorar, também não reconhecerá se um Dominador é sério. Desta forma terá de se contentar com um “combinado”, mas saiba que não passará de um jogo.
Consegue imaginar algo do tipo: Olha, eu gosto disso, não gosto daquilo. Aceito isto, mas não aceito aquilo. Isto aqui é um limite intransponível, isto pode e isto não pode.
Concordadas as duas partes, agora que está tudo resolvido é só começar a amar.
Consegue imaginar uma relação assim? Acha possível?
Me desculpe, mas eu não acredito que seja.
O amor, menina, não nasce de combinados, de jogos, ou transações. Como diz o escritor Rubem Alves, "o amor nasce de uma discreta troca de olhares, de um suave tocar de dedos". É esperar muito para qualquer tipo de relacionamento, sobretudo no BDSM, que o sublime surja de uma negociação.
Por favor, presta atenção, menina. Amor não se negocia, apenas se sente, se vive. Simples assim. Se quer negociar, então contente-se com o negócio, apenas isso. E não chore depois quando for deixada dias e dias sem uma só palavra. É apenas um jogo, um negócio. Lembra do que te avisei.